segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ela

A cabeça doía, o sono. A noite sem estudo algum, véspera de provas, provas infindáveis de um conhecimento desumano.
O ônibus cheio e você sozinha, a trapaça e a saudade, duas coisas distintas que se encontram em um dia cheio de banalidades. Aí vem a necessidade que se cria de ter sempre por perto, alguém que você sabe que não se importaria de te fazer um café, um sanduíche de presunto, o abstract do seu artigo, ou de traduzir todos os textos do mundo (claro, se ela tivesse tempo). Para (ela) também não importaria levantar-se as 4 da madrugada te levar no pronto-socorro com uma picada de uma aranha gigante não venenosa. Não seria penoso atravessar a cidade sem guarda-chuvas num dia cinza, e não doeria sair de um avião direto para uma aula de guarani.
E você sempre achou que gostar era algo fatigante, que deveria ter toda aquela loucura e toda aquela emoção das coisas que nunca dão certo. E ela encontra um autor qualquer que te fala o contrário.
E nisso você faz o seu mundo, as vezes ela está no canto, as vezes no meio, as vezes até, ela está do lado da pilha de livros, ou escondida atrás dos óculos daquele professor que você admira mas te odeia. Ela se esconde em finais de semana na cidade vizinha, que fica em outro país, ou de baixo da louça suja. Tanto faz, ela sempre está ali, com olhos verdes que chegam a doer, prestes a beijar sua orelha no meio de toda a gente, e te pedir pra parar, e rir do seu medo de Et's, e da sua filosofia estranha.
E ninguém acreditava na gente, só todo o cosmos.
E as horas passam, e você descobre em uma sexta-sabado-domingo-segunda, que os quilômetros tem o poder de dilatar ou contrair a saudade, e todo o resto, bem, são os outros.

domingo, 15 de abril de 2012

Agregado


Pensei em toda aquela coisa de neve na praia, um cinza no céu sem
fim, coração, abreviaturas, ondas apagando tudo. Floresta a dentro.
Você me deixou tirar a pata direita do coelho, vi aquilo tudo em
forma líquida vermelha desaparecer na terra úmida, tirei com força
Ele de dentro das últimas tentativas de grunhido da boca frágil,
medo de ser Ele. Acordei. Apaguei a tua luz, enquanto você canta
idéias para futuras telas, e eu me calo imaginando o desenho que
você nunca vai fazer.
Imaginação. Pena que morremos dela, de esperar ela, a morte, antítese da vida, a imaginamos todos os dias, na mais gelatinosa e escura parte do cérebro.
Eu sempre pensava que iria fazer algo, e você já sabia que nunca
daria certo. Ainda mais assim, quando falta um pedaço do teu
coração, falta um pedaço de caminho, onde só dois pés podem
permanecer, jamais quatro.

Me enfiei na sua biblioteca para tentar esconder meus olhos aflitos
atrás do Dom Casmurro, só assim, pude ficar em paz, como nos tempos
do ginásio, onde minha única obrigação era cuidar dos cabelos da
Capitu e dos joelhos de Bentinho.

sábado, 14 de abril de 2012

Jaune (amarelo)


E você não vinha. Então a segunda - feira já estava acabada, as vizinhas já voltavam da missa, o caminhão do lixo meus olhos já viam no fim da rua. E você não vinha.
Então na terça as ruas ficavam alagadas, a chuva machucava as asas e as pombas morriam na avenida principal.

Na quarta - feira chegava propositalmente atrasada, embalada na esperança de ver minha calçada com pegadas que coubessem nos seus pés, mas nada havia além de toda sujeira dos gatos, então eu entrava em casa, e o rádio falava de sangue, e a televisão mostrava o sangue, e o jornal avisava que o governo estava pensando em mudanças para acabar com os delinqüentes, e na rua eu os ouvia, e eles buscavam uma maneira de avisar que precisavam de um emprego, e o governo achava muito mais barato abrir jaulas no meio da selva de concreto. E você não vinha.

Na quinta-feira eu via o seu cartaz de estréia na frente do teatro, estréia na Comédie-Française, e eu me lembrava que não estava em casa, devia te esperar no continente que era cortado pelo oceano, esperar o dia em que você completaria algum número significativo de apresentações, o dia que para você não importaria esquecer quando nos esbarramos no lado mais escuro da cidade, não importaria lembrar o quanto éramos ricos em palavras e pobres em atos, te faria feliz lembrar de quando éramos dois anônimos, sentados em qualquer café rindo alto, ou em qualquer bar tentando te ensinar português enquanto ria de te ver vermelho por causa da pimenta, e você ria do leiti quenti, e eu nem tentava falar s'il vous plaît e ninguém importava, ninguém queria saber de nós, além do garçom que para você era também ''menino'' e para mim sempre foi o garçom.

Na sexta-feira eu só conseguia lembrar de maybe, maybe, maybe... Como estes sinais amarelos nos fazem pensar.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Monize, cala a boca

Quando acordei você já tinha atravessado a noite e a rua. Estava do outro lado da cidade, teleguiada por seu mau humor e orgulho.
''Eu nunca mais quero te ver, nunca mais!''
Estúpida.
Conheço todas estas palavras, todas jogadas do orgulho pra fora, atravessando brutalmente teus dentes, triturando tua boca.

Menina, eu não tenho mais tempo para o outro lado de você, problemas todos temos,e os teus me contaminam, me deixam paranoico.
Não me importo de te ver dormindo rangendo os dentes, sem pintura na cara e com a minha camisa, se eu não te amasse eu me importaria, mas é justamente por isso que você vai ser mãe dos meus filhos, porque me cala com esse cabelo desarrumado, com a vergonha por não estar com toda a roupa que estava até sair do meu sofá.

Dizem que a gente não deve se apaixonar por alguém bonito, porque são perigosos, burros, etc. Isso é papo de quem nunca amou na juventude. Quando somos jovens não somos sérios, mas somos conservados, conforme os anos passam, você até pode se permitir tentar amar alguém que não tenha olhos que te encantem, mas é em vão. Não há motivos para acordar com olhos comuns toda manhã, não há motivos para passar café para ombros comuns, não há pedido mundial de obrigação para amar uma nuca comum. Muito menos um cérebro.

Amor é feito de toque, cheiro, hormônios, peles e pelos. Todo cidadão do século atual sabe disso, no século passado sabia, mas isso não impedia a procriação e um lar seguro, materialmente.
Desculpe a letra feia e desculpe mais uma vez estar sendo egocêntrico como você diz sua hipócrita do caralho, desculpe por não citar a fome da África, e desculpe por não falar que o mundo tem problemas de mais para ficarmos discutindo sobre o amor. Mas a culpa é tua e o problema é meu.


ps: pelo amor de Deus, troque o toque polifônico de teu celular.

Te amo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Horas, louças e bitucas

Eu olho pro relógio na parede com um único prego: 8:07, atrasado
sete minutos para as próximas oito horas naquele escritório quente.
Olho os seus quadros no chão e sinto não ter uma parede de madeira,
se eu furar pago multa, brigo com o síndico tentando explicar e acabo
com uma ponta de raiva de você. Todas as culpas do mundo nas suas
costas, costas que eu gosto e de tanto gostar as vezes chamo de amor.

Amor.

Tiro o pé da cama, piso no copo de isopor com o seu batom, olho a
cadeira está a minha camisa que você usa para afundar no meu sofá,
olho para a mesa o dicionário de italiano que você folheia nos
primeiros vinte minutos quando entra no meu quarto, nas caixas de som
tocando baixinho aquela música da Carla Bruni que você canta no
telefone quando eu esqueço que estou brabo com você, ou quando eu
finjo.

Minha cozinha está arrumada, a pia está limpa, sem cacos de vidro ou
bitucas de cigarros, mas que surpresa a minha ao abrir a lixeira e ver
toda a minha louça lá, inclusive a porcelana.
Um bilhete com a sua letra feia em cima do saco de pão: – Lembra né,
que vou acampar, sem celular, internet ou inter-fone, duas semanas.
Vou sentir saudade, ou falta ou vontade de você, ainda não decidi.
Não queria te acordar, então não fiz barulho pra limpar tudo.
Beijo.

Visto minha camisa com o cheiro de nicotina misturado com o teu
perfume e algumas manchas de vinho, pego o dicionário e afundo no meu
sofá. Meu Deus, tudo que me apaixonar por você, toda desarrumada e
linda me esperando com aquele sorriso de sempre se desculpando por ter
entrado, se desculpando por ter a chave.

Hoje falta uma coisa em todas as minhas coisas que te fizeram
apaixonante, os teus ombros na camisa, as tuas costas no meu sofá, o
teu batom nos meus copos quebrados, as tuas mãos na minha porcelana.
Volta logo, porque eu sinto falta de alguém com a pronuncia horrível
do italiano mas com um francês tão sedutor quanto o de Carla Bruni.